segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Noturnos

 As batidas não paravam, assim como a luz piscando, os corpos se retorcendo ao meu redor e o cheiro de álcool e sêmen as alturas. Na parte “calma”, cerveja e cocaína sobre as mesas, risos forçados, outros por causa de alucinógenos. Os seguranças observam tudo, ficando excitados, querendo participar de todo aquele pandemônio, aproveitar cada segundo, cada corpo, cada gole e cada êxtase que podem ter.
 Eu odeio esse lugar.
 Não preciso fazer esforço para achar a minha mesa. Felippe acena para mim, um copo de shot com Vodka misturado com Whiski na mão. Ele sempre foi de misturas que não faziam o menor sentido.
 Vou até eles e sento na cadeira de costas para a parede. Estamos em um lugar privilegiado, conseguimos ver tudo ali. Tanto o pessoal lá de cima, na área VIP quanto o pessoal que não para de dançar. Analiso o batimento cardíaco de cada pessoa presente e vejo somente os naquela mesa são o que são.
 - Boa noite. – Eu os cumprimento. Recebo um boa noite de todos igualmente.
 Ao meu lado, está Cody. Coreano, cabelos pretos e curto, quase iguais aos meus, veio para o Brasil em 1963, quando o país dele começou a imigrar para cá. Desde então, ele é dá família. Sua mão está embaixo da mesa e seu dedo mindinho está entrelaçado com o de Fernanda. Ela prefere que a chamem de Fefs e está junto de Cody á algumas semanas. Ela tem os cabelos roxos, a pele branca e um sorriso tímido no rosto. Ela nasceu por volta de 1670, filha de um dos barões que mantinham punho de ferro no País (ou o que era a miniatura dele). Ela tinha 18 anos quando foi assassinada junto com toda a família por interesses de outras. Felippe e eu a encontramos e diferente dos outros, não demos um fim nela, nos a trouxemos para o nosso lado.
 Luana, ao lado de Fefs, ruiva (natural) os olhos que mudavam de castanho a azul, de azul a purpura e de purpura a castanho novamente. Ela é uma das mais calmas, por não ter muito que lutar mas, acredite: Luana não é uma inimiga que quer fazer. Ela nasceu por volta da ditadura militar e ninguém sabe ao exato o que aconteceu com ela. Só o que sabemos é que Cody achou ela em um buraco de terra, já transformada e morrendo de fome.
 E entre ela e mim, Felippe, o único além de mim que é Puro Sangue. A historia em si é muito longa para contar mas, ele é 20 anos mais velho do que eu, apesar de todo mundo dizer o contrario. Eu nasci por volta de 1478, apesar de não me lembrar muito bem.
 Todos nós usamos roupas diferentes...mas estamos igualmente “cobertos” com jaquetas de couros negras.
 Ah sim, esqueci-me de mencionar um detalhe.
 Todos ali naquela mesa são Vampiros.
 - Como foi a viagem, Drake? – Cody me pergunta.
 - Maçante. Espero que tenham um bom motivo para me chamarem. Eu estava prestes a jantar. – Eu disse, acendendo um cigarro e dando uma dragada.
 - Não entendo porque ainda faz isso. – Luana observou, apontando o dedo levemente para o cigarro. – Sabe muito bem que isso não causa efeito nenhum em nós.
 - Falou a garota que vira seis garrafas de balalaica por dia. – Fefs respondeu por mim e todos começam a rir.
 - Relaxe, Drake, logo vai acontecer. – Felippe disse, virando mais um copo. - Sei que é difícil, até para mim, mas, respire fundo. Eles tentam mascarar com algumas fragrâncias e com porra espalhada por todo lado mas, respire fundo...se concentre.
 Eu o olho e já descobri tudo antes mesmo de inspirar o ar profundamente, mas o faço só para ter certeza. O cheiro era o de antes...álcool, sêmen, urina, drogas, esmalte, sangue...sangue...perfumes, frutas, couro...couro...pelos...cachorro...
 Ah, não...
 - Interrompeu meu jantar para uma luta? – E todos começaram a rir de mim...até que eu comecei a rir também.
 Eu estava em Campinas, curtindo um pouco com amigos e conhecidos que tinha lá quando Felippe me ligou, dizendo que era importante. Era uma festa, pronto para enterrar uma loira que estava do outro lado do salão quando aconteceu. Ele me chamou para o Tatuapé, mais precisamente na Coelho Lisboa, em uma casa noturna chamada Silver Claw. Resmunguei comigo mesmo. Ir pra uma casa noturna aquela altura do campeonato e ainda mais com uma Pura para eu me saciar.
 Mas quando a família chama, você precisa estar lá. Querendo ou não.
 - Ok, quando? – Eu perguntei.
 - Agora... – Felippe respondeu com um sorriso. E como se fosse mágica, a musica parou. As luzes pararam de piscar e luzes fosforescentes diretas se acenderam, tirando todo o mistério do lugar.
 Cada pessoa ali presente emitiu um urro de desaprovação.  Logo, todos os seguranças estavam caminhando entre eles...tirando seus ternos e camisas. As pessoas sóbrias acharam estranho mas, as bêbadas começaram a achar que algum tipo de show ia rolar. E tecnicamente, aquilo foi um show, que começou assim que todas as janelas e portas do lugar foram trancadas.
 Deveria haver umas duzentas pessoas ali, talvez para mais. O banho de sangue que se deu quando os licantropos começaram a se mover foi realmente lindo. Eles eram rápidos para sua forma humana, até cuidadosos por não fazer que nenhuma gota de sangue caísse em nós ou até mesmo perto de nós.
 Não demorou muito tempo e a casa noturna inteira não se resumia a outra coisa que não fosse carne esfolada no chão e sangue nas paredes, teto e nos seguranças sem camisas.
 Fizemos questão de batermos palmas a eles.
 - O QUE NIGHTCRAWLERS FAZEM NA MINHA CASA? – O urro foi feio, rouco e dado por um dos maiores cuzões que tive o desprazer se conhecer nesses séculos.
 Apoiei um braço na cadeira e me vire para encarar Narciso, líder dos licantropos do local. Sem camisa, careca, calças rasgadas, olhos dourados e com certeza totalmente chapado por algum sangue de virgem, ele tentava manter uma postura ameaçadora enquanto estava de pé em cima da mesa de DJ. Não preciso dizer que falhou miseravelmente.
 Nossa raça (vampiros), é dividida em clãs, ou famílias, como preferir chamar. Grande parte das famílias são romenas ou britânicas, logo, os nomes dessas famílias são de sua língua natal. O Brasil é uma grande concentração de varias famílias, muitos mais de passagem do que de residência, diferente de mim e Felippe. Os Whitefangs, Redsons e os Vanators são os que mais encontramos por aqui. Apesar de acharmos muitos Greeneyes, Blacktooths, Cautators, Lad’s  e etc.
 Nós somos os Nightcrawlers.
 Obviamente, vampiros não são as únicas coisas aqui. Licantropos também vem aos montes. Mas não fazemos nenhuma questão de aprender nada sobre eles.
 - Eu que lhe pergunto. – Felippe começou, se levantando e caminhando até onde ele estava, com a melhor postura que um imortal pode ter. – O que você anda fazendo aqui?
 Narciso pulou, soltando um bufo e me fazendo terminar o cigarro em uma única dragada.
 - Esse lugar é meu agora. Não aparece um de vocês a meses e a Coelho Lisboa tava calma demais. Agora é tudo nosso.
 - Folgado você, não acha? – Fefs disse. O licantropo rosnou e pude ver um pedaço de pele caindo do seu ombro, relevando os pelos negros de sua verdadeira forma. Seus dentes ficaram cerrados e pude ver todos ali se curvando...se preparando para atacar.
 - Todo mundo quieto. – O ar ficou gelado de repente. Pude ver todos ficando com olhares perdidos enquanto Felippe colocava suas mãos em seus bolsos na jaqueta. Seus olhos agora eram o mais forte e profundo rubro que poderia existir. Sua voz fez com que todos ali ficassem em silencio enquanto ele sussurrava para a mente de todos os presentes.
 - Acho que é do conhecimento de todos que a Coelho Lisboa é uma zona de caça dos Nightcrawlers. Se você entrou aqui, achou que era seu e pegou, vai pagar as consequências agora.
 - Aé? – Narciso estufou o peito. – E quem vai fazer isso? Você? – Mesmo com o tremor na voz dele, eu pude ver o pouco de coragem que ele realmente tinha. Eu o dei créditos por isso.
 - Façamos assim. – Felippe sorriu e Fefs deu uma risada. Cody revirou os olhos e eu desisti da ideia de acender um novo cigarro. – Seus melhores contra os meus melhores. Que tal? Quem vencer, fica com o local. Quem perder, some da existência.
 - Ah...claro. – Narciso sorriu. – Meus dois melhores com seus dois melhores, certo? Que tal? Só vejo dois homens a sua mesa.
 - Ah, claro, claro. – Felippe deu as costas e se afastou. Demorou dez minutos, mas o centro foi limpo de todo o sangue e carne que tinha ali. Felippe aguardou conosco na mesa até que Narciso foi até lá e começou a gritar.
 - IRMÃOS! HOJE TEREMOS MORCEGO PARA O JANTAR! – Enquanto todos uivavam, literalmente, de alegria pela chance de batalha, eu senti minhas costas queimarem, meus caninos produzirem mais veneno do que o comum e meus olhos se tornando da mesma cor dos de Felippe.
 - Calma. – Felippe segurou meu antebraço. – Respire fundo e tenha calma.
 Chamar um Vampiro de morcego é a pior ofensa que se pode ter na vida. Mas a historia é longa e temos uma luta para mostrar.
 - EU CHAMO OTAVIO E NICHOLAS! – E mais urros, mais uivos. Surgindo dentre os seguranças, pisando nos restos mortais de todo mundo, Um tinha um moicano enorme, trajava roupas leves e pretas. O outro, tinha tudo para ser um de nós, se não fosse pelos olhos dourados e a pequena cicatriz no queixo. Vampiros não tem cicatrizes. – E você? – Narciso abaixou o tom de voz quando chamou. – O que tem a oferecer?
 - Drake e Fefs. – E nos levantamos na hora. Descemos a breve escada até onde iria acontecer a luta. Fefs virou de repente, lançou um beijo de distancia para Cody.
 - Aposto que ele ia adorar lutar. – Eu comentei com ela.
 - Ia sim. Mas eu tenho que ter minhas chances também. – Fefs respondeu com um sorriso.
 - E eu preciso esticar as asas. – E quem sorriu ao falar isso fui eu.
 Dando um leve riso, Narciso saiu andando e voltou a subir na mesa de DJ. Ele estendeu os braços e disse bem alto.
 - Não fraquejem só porque mandam uma mulher. – Ele riu. – Espalhem suas cinzas por esse local, irmãos.
 E em perfeita sincronia, os homens a nossa frente, começaram a se retorcer. Suas peles caíram, seus ossos quebraram, alongaram e depois se recolocaram. Um focinho cresceu enquanto suas orelhas se levantavam e ficavam na altura e na forma das de um lobo. O nariz se encolheu, achatou e ficou negro. Cresceram conforme a forma licantropo se tornava completa. E por fim, a nossa frente, havia dois lobisomens para lutarmos. Urros e mais urros de alegria e motivação vieram.
 - Qual você quer? – Eu perguntei, tirando a jaqueta.
 - Vou pegar os de pelos ruivos. Você pega os de pelo branco, pode ser? – Fefs perguntou, tirando a dela.
 - Ok. – Eu respondi. Jogamos as nossas jaquetas longe, sabendo que alguém ia pega-las. As patas dianteiras enormes do monstro a minha frente vieram abertas para mim. Dando um impulso mais forte que o necessário, a sola do meu pé acertou bem no meio dos olhos da criatura quando eu me joguei para trás dele e ele beijou o chão...mas em seguida se levantando rapidamente e me atacando em arco com suas garras. Me agachei, O braço enorme passou...mas o segurei. Enterrei minhas garras no cotovelo e puxei. O braço saiu com facilidade, juntamente com o urro de dor do focinho do monstro...que fiz questão de enfiar a parte do braço que arranquei dentro da goela dele. Em seguida, forcei mais ainda o braço para frente, até somente o pulso poder ser pego...e puxei com violência para a direita. O pescoço quebrou como se fosse de argila...e logo, havia um lobisomem morto no chão. O pelo começou a cair, revelando um humano nu e inútil deitado, com um braço enfiado na garganta.
 É assim que licantropos morrem.
 Olhei para o lado, Fefs estava em cima de um corpo sem cabeça, fazendo um biquinho desafiador. Então, ela mostrou dois dedos para mim.
 - Terminei dois segundos a menos do que você. – E demos uma risada, ignorando os urros de raiva e ódio que vinham de todos os lados, alguns prontos para se transformar. Até que Cody se levantou e disse, olhando para o ser patético em cima da mesa de DJ.
 - E ai? – Cody salivava, dava pra ver dali...ele queria mesmo uma boa briga.
 Narciso respirou fundo, engoliu a seco. Ele não contava que seriamos fortes, muito menos tão rápidos. Ele nos subestimou como sempre o fez. Ele respirou fundo por uma ultima vez, unicamente para marcar o meu cheiro, e de todos os meus irmãos ali. Em seguida, ele disse.
 - Eles venceram. Vamos embora. – E desceu novamente da mesa de DJ. Mas antes de dar mais um passo...eu o interrompi.
 - Aonde pensa que vai? – Ele olhou para mim depois da pergunta.
 - Irei embora. O clube e o território é de vocês. – E tentou caminhar novamente...mas eu me coloquei no caminho dele. Eu o encarei. Seus olhos não eram mais dourados. Eram um marrom chocolate perdido...sem triunfo nenhum.
 - Você invade nosso território. Insulta minha família. Menospreza minha irmã... – apontei para Fernanda. – só pelo fato de ela ser mulher. Você nos chama de morcegos, manda seus seguranças matarem nossa comida e espalhar os restos pelo chão...grita conosco e nos subestima como se sua raça fosse superior. – Cheguei bem perto dele...ficando cara a cara. – Acha mesmo...que vai sair daqui com vida? – Ele engoliu a seco. Narciso era um lobisomem a 50 anos...não era pareô para ninguém, nem mesmo desvendando metade do que um lobisomem de verdade podia fazer.
 - O acordo...
 - O ACORDO... – Felippe disse em voz alta, depois riu, dando uma piscada para mim. - ...era de quem perdesse...some da existência.
 Um gelo percorreu pelo corpo de cada licantropo ali presente. Eu me afastei...Fefs deu espaço...e eu grunhi enquanto eu sentia meu corpo reagir a minha vontade.
 - Que essa noite seja banhada em sangue em nome dos Nightcrawlers...
 Meus músculos cresceram. Minha roupa desapareceu. Minhas costas rasgaram e se abriram para dar espaço as minha asas. Minha pele queima e cinzas voam ao meu redor enquanto todo meu corpo se transforma na minha forma...na minha real forma.


 Fiquei agradecido aos meus irmãos. Eles me deixaram fazer tudo sozinho. Ou talvez, deixaram para ver como é a forma real de um Vampiro, coisa que não é tão comum quanto um lobisomem. Naquele grupo ali, somente eu e Felippe conseguíamos fazer isso. Leva tempo e experiência para tal forma.
 O que aconteceu não importa...o que importa é que depois disso, Luana administra a Silvar Claw, uma das melhores Casas Noturnas de São Paulo. Cody e Fefs acharam que deveriam passar um tempo sozinho e foram para França, onde poderiam ficar um pouco a sós. Felippe precisou ir a Moscou as pressas, algo haver com o Conselho. Não me importei muito, ele sempre dá um jeito.
 E eu...continuo por aqui.
 Eu gosto do Brasil. Eu gosto do modo como as pessoas aqui agem, como elas parecem querer saber mais sobre a escuridão, como elas agem como se fossem inatingíveis, como o sangue é sempre quente...e de como eu sei aproveitar isso.
 Quando o sol de poe é que a verdadeira diversão começa...
 Afinal de contas, a melhor parte do dia é a noite.

3 comentários:

  1. muito louco...na verdade incrivel...do tipo..quero ler mais !!!

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  2. kkkkkkkkkkkkkkkkk Qualidade inquestionável !!!!!!!!

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